O surgimento do jovem escritor Daniel Galera na cena literária é parte da história de um grupo de escritores de Porto Alegre que começou a publicar revistas virtuais na rede. Fundou e participou do projeto editorial Livros do Mal, em colaboração com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, onde publicou seus primeiros livros Dentes guardados (2001) e Até o dia em que o cão morreu (2003), romance que foi adaptado para o cinema em 2007, com o título Cão sem dono.
O seu mais novo romance, Barba Ensopada de Sangue, não é um livro cheio de aventuras e reviravoltas (estilo Game of Thrones, onde nada pára, se vocês me entendem). Mas é surpreendente, forte, cativante. Daniel Galera, que é gaúcho, mas nasceu em São Paulo (é porto-alegrense de coração, isso que interessa), conta a história de um professor de natação que busca refúgio, depois da morte do pai, na praia de Garopada, no litoral de Santa Catarina.
É numa narrativa despretensiosa, tranquila e rica em detalhes que conhecemos a história deste atleta, que busca informações sobre o assassinato e desaparecimento do avô na vila dos pescadores. O cenário do litoral catarinense, tão conhecido pelos gaúchos que um dia já veranearam lá, ajuda na compreensão do lugar, dos pontos que são importantes na localização do personagem, o que facilita nosso imaginar. O protagonista adota Beta, cadela que era do pai, instala-se num apartamento à beira-mar e arruma um emprego na academia da cidade.
O suspense somado aos diálogos introspectivos, acabam tornando os personagens que rodeiam o protagonista muito mais concretos. A mistura de ficção com realidade é feita com tamanha maestria que a impressão é de ler uma biografia.
O personagem principal ganha empatia por ter uma condição neurológica bem peculiar, que faz com que ele não consiga reconhecer traços faciais das pessoas, nem dele próprio. O autor cria uma realidade convincente, num contexto moderno, contemporâneo – com conflitos existenciais, de identidade, de relacionamentos.
Os demais personagens ganham vida na sutileza dos detalhes, na verossimilhança dos diálogos, na verdade dos sentimentos. E o autor se torna esplêndido na arte de contar sobre conflitos e consequências de atitudes. E dá, com certeza, uma lição sobre o contato com a natureza e os animais.
Galera consegue manter seu segredo durante a narrativa e não cai na tentação de resolver todos os conflitos, de desatar todos os nós e arrematar as pontas soltas. E assim, sai da banalidade e torna sua obra maravilhosa. E é exatamente nas pontas soltas que o livro surpreende e que a história alcança o clímax.
O romance explora o lado humano, o de estar só consigo mesmo, de como é lidar com isso. E por outro lado, examina muito bem o lado das relações, de amores e ódios. De indiferenças e amizades. É intrigante, quase impossível deixar de lado. Daniel Galera deixa a gente com aquela pontinha de orgulho de ser daqui, e de ter sim, literatura de qualidade.
P.S: A capa emborrachadinha da Companhia das Letras e as opções de cores ganharam meu coração.
Livro: Barba Ensopada de Sangue
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 424
Gênero: Literatura Nacional/ Romance

Tô lendo "a vermelha". Acho que é mais pertinente (pelo menos com o título).
ResponderExcluircristiane vianna amaral
Obs.: também adorei a textura da capa!
ResponderExcluirMinha edição é a azul e sabe que me surpreendi, achei que tem tudo a ver :) (a textura é maravilhosa hehe)
ResponderExcluirO meu é azul, mas acho meio estranho o emborrachado, parece que gruda. Mas o livro é excelente, um texto que parece que a gente tá conversando e vendo o protagonista. Tive a impressão que a história era a vida do Daniel Galera. Será?
ResponderExcluir