segunda-feira, 25 de março de 2013

Barba Ensopada de Sangue


O surgimento do jovem escritor Daniel Galera na cena literária é parte da história de um grupo de escritores de Porto Alegre que começou a publicar revistas virtuais na rede. Fundou e participou do projeto editorial Livros do Mal, em colaboração com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, onde publicou seus primeiros livros Dentes guardados (2001) e Até o dia em que o cão morreu (2003), romance que foi adaptado para o cinema em 2007, com o título Cão sem dono.

O seu mais novo romance, Barba Ensopada de Sangue, não é um livro cheio de aventuras e reviravoltas (estilo Game of Thrones, onde nada pára, se vocês me entendem). Mas é surpreendente, forte, cativante. Daniel Galera, que é gaúcho, mas nasceu em São Paulo (é porto-alegrense de coração, isso que interessa), conta a história de um professor de natação que busca refúgio, depois da morte do pai, na praia de Garopada, no litoral de Santa Catarina.

É numa narrativa despretensiosa, tranquila e rica em detalhes que conhecemos a história deste atleta, que busca informações sobre o assassinato e desaparecimento do avô na vila dos pescadores. O cenário do litoral catarinense, tão conhecido pelos gaúchos que um dia já veranearam lá, ajuda na compreensão do lugar, dos pontos que são importantes na localização do personagem, o que facilita nosso imaginar. O protagonista adota Beta, cadela que era do pai, instala-se num apartamento à beira-mar e arruma um emprego na academia da cidade.

O suspense somado aos diálogos introspectivos, acabam tornando os personagens que rodeiam o protagonista muito mais concretos. A mistura de ficção com realidade é feita com tamanha maestria que a impressão é de ler uma biografia. 

O personagem principal ganha empatia por ter uma condição neurológica bem peculiar, que faz com que ele não consiga reconhecer traços faciais das pessoas, nem dele próprio. O autor cria uma realidade convincente, num contexto moderno, contemporâneo – com conflitos existenciais, de identidade, de relacionamentos.

Os demais personagens ganham vida na sutileza dos detalhes, na verossimilhança dos diálogos, na verdade dos sentimentos. E o autor se torna esplêndido na arte de contar sobre conflitos e consequências de atitudes.  E dá, com certeza, uma lição sobre o contato com a natureza e os animais.

Galera consegue manter seu segredo durante a narrativa e não cai na tentação de resolver todos os conflitos, de desatar todos os nós e arrematar as pontas soltas. E assim, sai da banalidade e torna sua obra maravilhosa. E é exatamente nas pontas soltas que o livro surpreende e que a história alcança o clímax.

O romance explora o lado humano, o de estar só consigo mesmo, de como é lidar com isso. E por outro lado, examina muito bem o lado das relações, de amores e ódios. De indiferenças e amizades. É intrigante, quase impossível deixar de lado. Daniel Galera deixa a gente com aquela pontinha de orgulho de ser daqui, e de ter sim, literatura de qualidade.

P.S: A capa emborrachadinha da Companhia das Letras e as opções de cores ganharam meu coração.

          Livro: Barba Ensopada de Sangue
          Autor: Daniel Galera
          Editora: Companhia das Letras
          Páginas: 424
          Gênero: Literatura Nacional/ Romance


segunda-feira, 18 de março de 2013

As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia



Quem nunca ouviu falar d’As Brumas de Avalon? Ao contrário de muitos outros, As Brumas de Avalon é um clássico que faz valer toda a fama que tem. A recriação da Bretanha e da lenda do Rei Artur é espetacular, pelo menos na primeira das quatro partes.

A obra foi escrita por Marion Zimmer Bradley, autora que se tornou famosa também pela série Darkover. A americana, natural de Albany nos Estados Unidos, estudou a fundo toda a história da vida de Artur, inclusive visitando muitos locais da Bretanha, para conseguir envolver magia e fantasia a história do famoso Grande Rei da Bretanha.

Marion utiliza um vocabulário rebuscado, o que é necessário tendo em vista o contexto da época. A leitura é agradável e fluida, poucas vezes a história dá ênfase a partes menos interessantes. O livro não é cansativo, mas segue o padrão da literatura fantástica, com riqueza de informação e de vocabulário.

Com a história se sobrepondo aos detalhes – e nesse ponto As Brumas de Avalon se diferencia de muitos livros fantásticos – constrói-se uma obra de 248 páginas e uma série de quatro livros que não diferem muito uns dos outros quando falamos de tamanho.

Igraine, Morgana e Viviane são as principais personagens nesse primeiro livro da série e provocam nuances da opinião do leitor. Lembrando Martin e As Crônicas de Gelo e Fogo, Marion passa uma imagem de cada personagem para mais tarde, revelar outro viés da história, sendo capaz de destruir uma imagem positiva criada anteriormente.

Em uma terra em que os homens batalhavam e pareciam decidir o rumo do reino, é a visão das mulheres que é passada para o leitor. Mas está longe de ser uma história só de tecer e tricotar, a força da mulher é uma característica marcante, todas elas lutam pelos seus interesses desafiando até mesmo a magia para que a profecia se cumpra.

A religião é outro ponto importante da obra. O Cristianismo, a antiga religião das Sacerdotisas do Lago e outras religiões criadas por Marion, dão o tom de cada sociedade e revelam rituais muito bem explorados pela autora. O que mais chama atenção é a crítica a fé cristã que não é capaz de aceitar outra religião e transmite vingança aos seus fiéis, como no trecho “Como poderia um deus misericordioso ser mais fanático e vingativo do que o menor de seus mortais?”.

A Bretanha antiga, uma Avalon escondida atrás das brumas, duendes e até mesmo seres não humanos e te esperam nessa jornada. O segundo livro da série está na fila e, em breve, aparecerá por aqui também.

           Livro: As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia
           Autor: Marion Zimmer Bradley 
           Editora: Imago 
           Páginas: 248
           Gênero: Fantasia

sexta-feira, 8 de março de 2013

A Sangue Frio


Livro obrigatório para jornalistas e aspirantes à profissão, A Sangue Frio foi publicado em 1966 e conta uma história brutal: o assassinato de uma família na cidade de Holcomb, no interior do Estado do Kansas, Estados Unidos. Originalmente publicado em 4 capítulos, durante o ano de 1965,  na revista americana The New Yorker, o livro é considerado a obra-prima do New Journalism – gênero jornalístico que surgiu na imprensa dos EUA na década de 1960 e que mistura a narrativa jornalística com a literária.

Para escrever o livro, Truman Capote fez uma extensa pesquisa, que durou cerca de cinco anos, isso mesmo, cinco anos de entrevistas, consultas em documentos oficiais, diários, cartas e muita observação. Tudo isso resultou em mais de oito mil páginas de anotações, além das entrevistas com os assassinos Richard Hickock e Perry Smith.

Essa forma de fazer jornalismo, embora possa ser lido como ficção, não é ficção. Deveria, teoricamente, ser tão verídico como uma reportagem, mas consente que o escritor seja mais imaginativo e até mesmo se intrometa no texto. O que Capote faz bastante. Tudo começou quando, depois de ler uma pequena nota sobre os assassinatos no The New York Times, Capote resolveu que aquilo daria uma boa história. E lá se foi para a pequena cidade, chegando um mês depois, com a população ainda em choque.

Truman Capote consagrou-se com a obra, que virou filme em 2005 e ganhou até um Oscar. Além dessa versão mais recente, outras já tinham sido feitas. No livro, ele conta desde a idéia inicial do crime, o passado dos assassinos e suas execuções. 

O livro começa com a história das vítimas em seu último dia de vida: 15 de novembro de 1959. Herb Clutter, de 48 anos, respeitado fazendeiro. Bonnie Clutter, sua esposa, que sofria de "problemas psicológicos". Os dois filhos adolescentes, Kenyon e Nancy.

O crime abalou a pacata cidade de apenas 270 habitantes e fez com que ela ficasse muito famosa, cheia de jornalistas, autoridades, polícia e claro, curiosos. A polícia passou a procurar incansavelmente os criminosos, que haviam levado da casa apenas um rádio, um par de binóculos e 40 dólares.

Capote descreve minuciosamente a reação dos moradores da cidade, a investigação policial e os passos dos criminosos durante a fuga, assim como a história pregressa dos assassinos. Poucos meses depois do crime, Richard Hickock e Perry Smith são presos. Condenados à morte, somente em 14 de abril de 1965 eles são executados.

Truman Capote prende o leitor de uma forma feroz. A família Clutter e até mesmo Hickcok e Smith parecem tão próximos, que é como se os conhecêssemos de longa data. Mas é depois de umas 100 e tantas páginas que ele começa a contar o que se passou naquele dia. O ritmo é tão penetrante que eu fiquei neurótica: cheguei a sonhar que estava “investigando” os assassinatos, tão grande era minha curiosidade.

O crime é descrito tão minuciosamente que a impressão é de que o próprio Capote estava na casa naquele momento. E, também, no carro durante a fuga. Na verdade, é como se ele estivesse sempre em todos os lugares, observando tudo. Houve um rumor, que é contado no epílogo do livro, de que ele teria se envolvido amorosamente com Perry Smith, e que por isso não tinha conseguido assistir à sua execução. No desenrolar das investigações e do julgamento, duas versões são contadas por Rick e por Smith. Um dos assassinos ganhou minha simpatia e eu escolhi a versão dele para acreditar. Mas será que o rumor era verdadeiro? Capote nunca confirmou.

A Sangue Frio é impactante, de uma excelente escrita, numa narrativa que leva o leitor para dentro da história. É de arrepiar. E é, de fato, tão real que choca, incomoda, não nos deixa parar de pensar no crime, nas motivações dos assassinos.

É um livro que mexe com as emoções, com a realidade, com nossa capacidade de lidar com a crueldade, frieza e loucura humana. Um livro que ninguém pode deixar de ler.

         Livro: A Sangue Frio
         Autor: Truman Capote
         Editora: Companhia das Letras
         Páginas: 440
         Gênero: Não-ficção/ Literatura estrangeira/ Jornalismo

segunda-feira, 4 de março de 2013

Mengele: O Último Nazista



Ao som de uma valsa vienense, de frente para um belo e galante rapaz, transpassava o último cheiro de esperança da vida de muitos judeus. Era assim que as pessoas reagiam ao ver Josef Mengele. O efeito era ainda maior naquelas jovens mulheres, esperançosas de que uma bela história ainda esperava-as naquela vida que havia se tornado tão torturante no momento em que foram capturadas.

A história escrita por Gerald Astor narra a vida e a morte de Josef Mengele, além de um panorama geral do nazismo. Desde a primeira armada nazistas, a SA ou Os Camisas Pardas que eram abertamente homossexuais, até a tomada do poder, o autor guia o leitor em uma história triste e visceral.

Um estudante de medicina seduzido, como muitos outros, pelo discurso nazista acabou se alistando em um dos grupos que apoiava o regime. Mengele começou sua carreira militar nos Capacetes de Aço, onde passou 3 anos, para então partir para a AS, uma classe já decadente que acabou causando certo desconforto tempos depois quando ele se alistou na SS, grupo que o levou ao seu patamar máximo.

A leitura é bastante interessante e o volume de história contido no começo da obra traz curiosidade. Depois do panorama inicial sobre o nazismo, Gerald foca em Mengele e em sua história em Auschwitz detalhando suas barbáries e sua “gentileza”. E, então, não tem como parar de ler durante dezenas de páginas.

Com o poder nas mãos, Mengele tinha todas as ferramentas para botar em prática toda sua maldade doentia. O tal rapaz ganhou vários apelidos: Anjo da Morte, Anjo Exterminador, Doutor Morte e, até mesmo, Açougueiro. Sua beleza e gentileza chegavam a provocar suspiros de moças que sabiam de muitas das barbáries por ele cometidas.

Mengele era um dos muitos selecionadores, mas parecia ser o único que sentia prazer em separar os que se tornariam escravos dos que morreriam nas câmaras de gás, ou ainda aqueles que usaria em seus experimentos “científicos”.

O autor nos revela muitas das experiências de Mengele, por meio de relatos de médicos judeus que eram obrigados a trabalhar para ele. Cada uma mais absurda que a outra, a busca da eugenia, fazia Mengele testar anomalias nos humanos. Fixações próprias, como a que ele tinha com gêmeos e prisioneiros em geral eram utilizados em experimentos macabros e mortais. Torturas lentas, como injeção de algum material nos corpos, ou mesmo torturas rápidas que faziam os prisioneiros se mutilarem de pavor.

Felizmente o nazismo foi derrotado. Porém, Mengele e muitos outros nazistas conseguiram fugir, não somente por méritos pessoais, mas muito pelo descaso, ou pela vontade, por parte de pessoas importantes, de que fugissem.

Gerald começa a contar como foram os passos de Mengele na América do Sul. O livro adquire um tom mais especulativo, utilizando sempre a história “mais confiável”. Essa parte do livro perde a intensidade de história e se torna maçante. À exceção das últimas, a centena final de páginas não é agradável.

Foi a Argentina que usou seu lema “União e Liberdade” para se unir aos malfeitores e dar a liberdade para assassinos em massa. Perón aguardava fascistas e nazistas de braços abertos. E lá, começou a vida de Mengele na América do Sul. Ele ainda passaria por Uruguai e Paraguai antes de chegar no Brasil. Aqui, na América do Sul, Mengele construiu uma nova vida. Sem perder seu autoritarismo e sem sentir qualquer culpa, sempre escondendo seu passado e ajudado com o descaso das autoridades, ele seguiu até morrer, aos 67 anos de idade.

A má vontade de quem deveria procurar pelo Anjo da Morte agonia o leitor por muitos capítulos. E a agonia fica ainda maior por saber que Mengele, O Último Nazista, morreu afogado por estar velho e já bastante adoecido, num Brasil que fez jus a todas as críticas que a cultura latina recebeu e também foi conivente com criminosos de guerra como Josef Mengele.

Gerald Astor escreveu uma obra dura, que por vezes chega a nos dar ódio, mas que deve receber a atenção de todos. Não necessariamente pelo livro em si, mas a tudo ao que se refere e tudo o que aconteceu naqueles anos obscuros do holocausto. Para que a história não seja esquecida e, ainda mais importante, para que essa infeliz história jamais seja revivida. 

         Livro: Mengele: O Último Nazista
           Autor: Gerald Astor
           Editora: Planeta do Brasil
           Páginas: 296
           Gênero: Biografia