quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Terra Sonâmbula


Descobri Mia Couto na última feira do livro de Porto Alegre. O autor moçambicano estava super badalado por aqui e não se falava em outra coisa. Escolhi aleatoriamente Terra Sonâmbula para conhecê-lo. Descobri que esse foi o primeiro romance dele, publicado em 1992 (sua obra inclui poesia, contos e crônicas). Foi considerado, por um júri especial da Feira do Livro de Zimbábue, um dos doze melhores livros africanos do século XX. Aqui no Brasil foi reeditado pela Companhia das Letras. A história de Terra Sonâmbula já foi produzida no cinema, ainda não assisti, mas fica a dica para quem tem preguicinha de ler, mas quer conhecer a história

O livro é escrito em uma prosa poética e romântica, bem diferente do que estamos acostumados a ler. Lembra bastante o modo de Guimarães Rosa. Mia Couto se utiliza de um realismo mágico, de uma arte narrativa que envolve o leitor numa fábula cheia de fantasias míticas. Em meados dos anos 80, quando estreou nos contos, fez o mesmo com uma nova maneira de falar português – ou “faliventar”, como diz o autor. E essa foi uma das dificuldades do livro – as palavras inventadas, palavras novas ou africanas - que trancam um pouco a leitura, mas ao mesmo tempo criam um cenário diferente e uma leitura mais densa, com vocabulário rico e diversificado.

A guerra civil que devastou Moçambique entre 1976 e 1992, no período pós- independência, é cenário para a história do menino Muidinga e do velho Tuahir, que fazem de um ônibus incendiado – o machimbombo –, sua casa. É na convivência de Muidinga, que foi encontrado sem memória pelo velho errante, que nasce uma amizade paternal baseada em conflitos, perdas, falta de passado e de esperança.

Perto do ônibus eles encontram o corpo de mais um refugiado, e com ele, uma mala. Dentro desta mala está um caderno que levará os dois personagens a viver aventuras sem destino. Numa terra que nunca dorme, nunca descansa, uma terra sonâmbula, os capítulos da história de Muidinga e Tuahir vão se intercalando com a história contada nos doze capítulos do diário de Kindzur. E o menino, na sua inocência de criança, acredita que nas folhas daquele caderno está o mapa para encontrar sua família.

Muidinga não lembra nada sobre seu passado. Tudo que sabe é o que lhe conta seu companheiro de jornada. O velho, que tinha o serviço de enterrar corpos em um campo de refugiados, salvou o menino de ser enterrado vivo e o adotou para si, ensinando-o novamente a andar e falar. Os dois, então, vagueiam pela estrada em meio às desordens da guerra, aos assaltos dos bandos armados, aos desmandos das autoridades. Tudo é perigo naqueles lugares. Durante o dia, saem para explorar a região. Durante a noite, o menino lê as histórias para o velho.

Histórias antigas e míticas são misturadas com a modernidade e algumas passagens são hilárias, enquanto outras provocam uma sensação de aperto e de angústia no leitor. A devastação, miséria e crenças vão construindo uma história sobre a esperança e o sonho, que nunca morre.

“Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho" - Crença dos habitante de Matimati

Terra Sonâmbula foi uma experiência diferente das quais eu estava acostumada. Demorei para ler e precisei de muita concentração para chegar ao final. Mas é uma leitura que vale a pena, que fala de sonhos, de esperanças, de fantasias. Mostra que a prosa e a poesia andam juntas e que revelam uma realidade que nem sequer imaginávamos.

Um trecho, dos mais bonitos:

- É o que, mãe?
- É que estou grávida maistravez.
A velha devaneava, sonhatriz. Com aquela idade como poderia ela se duplicar? A voz dela, porém, trazia certezas capazes de me confundir.
- Estou grávida, filho. Não é de agora, é já de muito tempo.
- Muito tempo, quanto?
- São anos que guardo essa criança. Nem quero ela nascer nesse tempo. Fica assim dentro de mim, me companha o coração.

        Livro: Terra Sonâmbula
        Autor: Mia Couto
        Editora: Companhia das Letras
        Páginas: 206
        Gênero: Ficção histórica


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Na Toca dos Leões

Fernando Morais e sua obra Na toca dos leões
Fernando Morais é mineiro, nascido em Mariana no ano de 1946. Começou a carreira de jornalista em 1961 e trabalhou em grandes veículos de comunicação brasileiros. Recebeu três vezes o prêmio Esso e quatro vezes o prêmio Abril de jornalismo. Atuou também na política, mas o que importa para nós é sua veia literária. Um dos maiores escritores de não-ficção do Brasil, ganhou o prêmio Jabuti com o livro Corações Sujos (2000), é o autor de grandes obras como Olga e Os Últimos Soldados da Guerra Fria, além, é claro, do livro que analisamos aqui.

Dessa vez, o autor entrou num mundo cheio de histórias mal contadas ou, às vezes, bem contadas até demais. Esmiuçando a vida de Washington Olivetto e de vários outros profissionais que trabalharam com ele, Fernando Morais traz ao leitor o mundo da publicidade com todos os confetes que ele carrega. E ainda mais, mostra que muitas intrigas e inimizades vão sendo construídas à sombra do glamour da profissão.

A história se baseia em como foi criada a agência de publicidade mais premiada da história deste país e uma das maiores do mundo, a W/Brasil. Obviamente, se situa muito mais à volta do W mais famoso do país, sendo considerada até mesmo uma biografia de Olivetto. Mas a obra também revela histórias de outros grandes profissionais da propaganda como Javier Llussá e Gabriel Zellmeister que viriam a formar o “Brasil” no nome da agência em sociedade com Olivetto. Curiosamente ambos são espanhóis.

Brigas entre grandes nomes da propaganda, disputa pelos créditos de peças e campanhas, falta de modéstia, encrencas com clientes e aliciamento de marcas são algumas das intrigas relatadas no livro, mas não são todas. As sombras do glamour trazem muitas histórias e ainda mais versões destas. 


A propaganda pode ter seu lado nem tão belo, mas sempre o lado poético chama mais atenção, e foi isso que criminosos viram em Washington Olivetto. O livro descreve o sequestro, ocorrido em meados de 2004, com uma intensidade que poucas vezes um livro me proporcionou. Ao narrar a epopeia de Olivetto, Fernando Morais faz do leitor seu prisioneiro.

Para quem estuda publicidade, Na toca dos leões traz inspiração e mostra um pouco do que o futuro pode lhe aguardar. Para quem não vive esse mundo, o livro retira a máscara tão bela que a propaganda passa a todos que a consomem e mostra um lado nem tão sedutor. 

Na toca dos leões é um ótimo livro e é recomendado para quem gosta ou não de publicidade. Afinal, quando a propaganda é boa, todo mundo gosta.

             Livro: Na toca dos leões
             Autor: Fernando Morais
             Editora: Planeta
             Páginas: 495
             Gênero: Não-ficção