Descobri Mia Couto na última feira do livro de Porto Alegre. O autor moçambicano estava super badalado por aqui e não se falava em outra coisa. Escolhi aleatoriamente Terra Sonâmbula para conhecê-lo. Descobri que esse foi o primeiro romance dele, publicado em 1992 (sua obra inclui poesia, contos e crônicas). Foi considerado, por um júri especial da Feira do Livro de Zimbábue, um dos doze melhores livros africanos do século XX. Aqui no Brasil foi reeditado pela Companhia das Letras. A história de Terra Sonâmbula já foi produzida no cinema, ainda não assisti, mas fica a dica para quem tem preguicinha de ler, mas quer conhecer a história
O livro é escrito em uma prosa poética e romântica, bem diferente do que estamos acostumados a ler. Lembra bastante o modo de Guimarães Rosa. Mia Couto se utiliza de um realismo mágico, de uma arte narrativa que envolve o leitor numa fábula cheia de fantasias míticas. Em meados dos anos 80, quando estreou nos contos, fez o mesmo com uma nova maneira de falar português – ou “faliventar”, como diz o autor. E essa foi uma das dificuldades do livro – as palavras inventadas, palavras novas ou africanas - que trancam um pouco a leitura, mas ao mesmo tempo criam um cenário diferente e uma leitura mais densa, com vocabulário rico e diversificado.
A guerra civil que devastou Moçambique entre 1976 e 1992, no período pós- independência, é cenário para a história do menino Muidinga e do velho Tuahir, que fazem de um ônibus incendiado – o machimbombo –, sua casa. É na convivência de Muidinga, que foi encontrado sem memória pelo velho errante, que nasce uma amizade paternal baseada em conflitos, perdas, falta de passado e de esperança.
Perto do ônibus eles encontram o corpo de mais um refugiado, e com ele, uma mala. Dentro desta mala está um caderno que levará os dois personagens a viver aventuras sem destino. Numa terra que nunca dorme, nunca descansa, uma terra sonâmbula, os capítulos da história de Muidinga e Tuahir vão se intercalando com a história contada nos doze capítulos do diário de Kindzur. E o menino, na sua inocência de criança, acredita que nas folhas daquele caderno está o mapa para encontrar sua família.
Muidinga não lembra nada sobre seu passado. Tudo que sabe é o que lhe conta seu companheiro de jornada. O velho, que tinha o serviço de enterrar corpos em um campo de refugiados, salvou o menino de ser enterrado vivo e o adotou para si, ensinando-o novamente a andar e falar. Os dois, então, vagueiam pela estrada em meio às desordens da guerra, aos assaltos dos bandos armados, aos desmandos das autoridades. Tudo é perigo naqueles lugares. Durante o dia, saem para explorar a região. Durante a noite, o menino lê as histórias para o velho.
Histórias antigas e míticas são misturadas com a modernidade e algumas passagens são hilárias, enquanto outras provocam uma sensação de aperto e de angústia no leitor. A devastação, miséria e crenças vão construindo uma história sobre a esperança e o sonho, que nunca morre.
“Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho" - Crença dos habitante de Matimati
Terra Sonâmbula foi uma experiência diferente das quais eu estava acostumada. Demorei para ler e precisei de muita concentração para chegar ao final. Mas é uma leitura que vale a pena, que fala de sonhos, de esperanças, de fantasias. Mostra que a prosa e a poesia andam juntas e que revelam uma realidade que nem sequer imaginávamos.
Um trecho, dos mais bonitos:
- É o que, mãe?
- É que estou grávida maistravez.
A velha devaneava, sonhatriz. Com aquela idade como poderia ela se duplicar? A voz dela, porém, trazia certezas capazes de me confundir.
- Estou grávida, filho. Não é de agora, é já de muito tempo.
- Muito tempo, quanto?
- São anos que guardo essa criança. Nem quero ela nascer nesse tempo. Fica assim dentro de mim, me companha o coração.
Livro: Terra Sonâmbula
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 206
Gênero: Ficção histórica

