quarta-feira, 17 de julho de 2013

Crash


Um livro doentio e sexy em níveis astronômicos. Essa afirmação pode parecer contraditória, e deveria ser, mas J. G. Ballard mostra que não. Doentio e sexy podem andar lado a lado num mundo fetichista que, apesar de ficcional, é bastante próximo da realidade.

Este livro é de 1973, mas se mantém atual mesmo depois de 40 anos, principalmente quando revela os problemas de uma sociedade que vive boa parte dos seus dias dentro de automóveis. A história é contada em primeira pessoa por um personagem que o autor, curiosamente, nomeou com seu próprio nome: James Ballard. A saga é narrada após Ballard se envolver em um acidente que quase levou a sua morte.

O acidente revela um lado ainda não explorado dos automóveis pelo protagonista, as muitas alternativas sexuais que os desastres podem proporcionar. Ballard é introduzido por Vaughan a um mundo fetichista e altamente sexual. Vaughan é um aficionado por acidentes de carro que passa seus dias fotografando vítimas e vê estes tristes acontecimentos com um prazer assustador.

Crash se utiliza da simforofilia, fetiche por desastres como incêndios ou acidentes de carro, para prender o leitor numa trama assustadora, na qual o personagem passa a viver os desastres automobilísticos como fundamentação de sua vida, e leva sua mulher junto. Uma das coisas mais assustadoras é a naturalidade com que as pessoas lidam com o desastres e a morte. O carro e outras máquinas são vistas, basicamente, como instrumentos sexuais, como no trecho que Ballard vê todos os aviões do aeroporto como se quisessem penetrar no ânus de uma aeromoça(!). Mas o foco mesmo são os carros, eles se tornam base da relação sexo e homem a tal ponto que impossibilitam o ato sexual fora deles.

Ballard (como autor) descreve tudo exaustivamente, adjetivos e mais adjetivos durante todo o livro ajudam a dar essa noção demente dos personagens. Abstrações inimagináveis para nós, meros mortais, sobre sexo, carros e acidentes são recorrentes. As passagens sobre drogas são enlouquecedoras, as sobre sexo excitam, outras ainda que tratam de deficiências e morte são pavorosas, de arrepiar.

Agora que tu já leu sobre como é o livro, vale tocar novamente num aspecto: este livro é de quatro décadas atrás, época na qual as pessoas tinham uma visão muito mais conservadora sobre sexo e mais ainda sobre fetiches extremos como os relatados na obra. Tudo bem, os EUA viviam uma época de rebeldia pós-Woodstock e uma onda hippie que jogou fora muito dos preconceitos, mas se mesmo hoje, um livro é capaz de impactar tanto um leitor (me impactou MUITO), imagine como não deve ter sido naquela época.

Os capítulos vão te inserindo gradativamente a um mundo bastante forte, sedutor e, por vezes, nojento. Por mais que não se goste, que se tenha aversão ou nojo de coisas assim tão fortes, o livro é uma ótima leitura para fugir do estilo padrão de histórias com poucas variações ou mesmo das épicas que circundam o senso comum. Esta foge de tudo que se pode imaginar. Ela é forte e intensa, mas agride o leitor, faz repensar sobre a capacidade de loucura que pode se abater sobre as pessoas, mesmo uma pessoa comum como o personagem principal, Ballard.

É um livro caro, cerca de R$40,00, principalmente se levarmos em consideração o seu tamanho. Eu comprei na promoção da Companhia das Letras pela metade do preço, mas mesmo o preço cheio vale a pena. E ele vale por contar uma história bastante diferente e muito chocante. Se tiver a oportunidade, leia.  Se estiver na dúvida se compra ou não, compre.

Este é um livro que vale o investimento, mesmo que tu venha a odiar a história, só o cenário único proposto pela obra já é válido para adquirir conhecimento sobre coisas absurdas e diferentes. Caso, mesmo depois de saber tudo isso, você opte por não ler, existe um filme de 1996 que dá a oportunidade de você conhecer a história de Crash. Apesar de nada superar o prazer de descobrir página a página, cada detalhe de uma história.

            Livro: Crash
            Autor: J. G. Ballard
            Editora: Companhia das Letras
            Páginas: 240
            Gênero: Romance