Hoje terminei de ler Corações Sujos, livro do jornalista e escritor mineiro (e muito querido) Fernando Morais. Este é o sexto livro que leio dele e serviu para confirmar minha opinião: que escritor! Depois de ter lido A Ilha (1975), Olga (1985), Chatô, o rei do Brasil (1994), Na Toca dos Leões (2004) e Os últimos soldados da guerra fria (2011), descobri este livro quando comecei a pensar num assunto para o meu trabalho de conclusão de curso (estudo jornalismo, para quem não sabe). Já tinha decidido pesquisar sobre jornalismo literário, que é uma verdadeira paixão, e sobre o Fernando Morais, que é um grande exemplo para mim.
Corações Sujos foi lançado nos anos 2000 pela Companhia das Letras e ganhou, em 2001, o prêmio Jabuti de livro de não-ficção. Um best-seller que conta a história de um Brasil pouco conhecido: a guerra na colônia japonesa após o término da Segunda Guerra Mundial.
O livro foi resultado de mais de cinco anos de pesquisa, viagens ao interior de São Paulo e Paraná e centenas de entrevistas. A reportagem que Fernando Morais escreveu depois de intensos anos de trabalho conta em detalhes o conflito entre os kachigumi, ou “vitoristas” – imigrantes japoneses que não aceitavam a derrota do Japão na guerra, apoiados por oitenta por cento da comunidade japonesa no Brasil – e os makegumi, ou “derrotistas” – imigrantes japoneses apelidados pelos militantes da seita de “corações sujos”, por terem aceitado a derrota do Japão na Segunda Guerra.
Cheios de nomes japoneses (que se parecem muito e em certo momento confundem um pouco), o livro narra a série de atentados ocorridos entre os anos 1946 e 1947 e que matou dezenas de japoneses e feriu centenas deles. A investigação sobre a organização secreta japonesa Shindo Renmei – ou Liga do Caminhos dos Súditos, responsável pela “limpeza ideológica” na colônia japonesa, revela amor e ódio daqueles que deixaram a pátria e passaram a viver no Brasil.
Fernando Morais investiga as razões que fizeram imigrantes matarem e morrerem em nome do amor e das crenças nacionalistas, o culto ao estilo de vida japonês – o Yamatodamashii. Numa época de grandes tensões no país, mais de 30 mil suspeitos de envolvimento na seita foram presos e 380 pessoas foram condenadas. E para além dos relatos dos ataques, mortes e prisões, o livro revela um Brasil que quase nunca é explorado: as crenças dos imigrantes, as diferenças entre culturas, as represálias sofridas.
O autor conta magistralmente, e não pela primeira vez, histórias reais e fatos que ficaram escondidos por décadas. Ele consegue explicar com clareza, num texto fluído, as histórias dos militantes, das vítimas e o panorama da política do Brasil nos anos 1940. E, de forma objetiva, monta um quadro rico em detalhes e explicações. É o Brasil que vem à tona e surpreende muita gente.
Além do livro, Corações Sujos virou filme em 2011, dirigido pelo cineasta austro-brasileiro Vicente Amorim. Com estreia também no Japão, em 2012, foi baseado no livro-reportagem de Fernando Morais. E mais do que relatos de fatos, é uma das melhores maneiras de aprendizado sobre um momento importantíssimo da história do país.
Me estendi mais do que deveria, mas foi por uma boa causa. Recomendadíssima leitura, vale a pena conhecer e ler um autor que escreve tão bem e que se dedica muito na apuração das histórias. Um beijo Fernando Morais e começa a escrever outro livro logo que estou esperando.
Livro: Corações Sujos
Autor: Fernando Morais
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 344
Gênero: Não-ficção/ Livro-reportagem

