segunda-feira, 22 de abril de 2013

Corações Sujos


Hoje terminei de ler Corações Sujos, livro do jornalista e escritor mineiro (e muito querido) Fernando Morais. Este é o sexto livro que leio dele e serviu para confirmar minha opinião: que escritor! Depois de ter lido A Ilha (1975), Olga (1985), Chatô, o rei do Brasil (1994), Na Toca dos Leões (2004) e Os últimos soldados da guerra fria (2011), descobri este livro quando comecei a pensar num assunto para o meu trabalho de conclusão de curso (estudo jornalismo, para quem não sabe). Já tinha decidido pesquisar sobre jornalismo literário, que é uma verdadeira paixão, e sobre o Fernando Morais, que é um grande exemplo para mim.

Corações Sujos foi lançado nos anos 2000 pela Companhia das Letras e ganhou, em 2001, o prêmio Jabuti de livro de não-ficção. Um best-seller que conta a história de um Brasil pouco conhecido: a guerra na colônia japonesa após o término da Segunda Guerra Mundial.

O livro foi resultado de mais de cinco anos de pesquisa, viagens ao interior de São Paulo e Paraná e centenas de entrevistas. A reportagem que Fernando Morais escreveu depois de intensos anos de trabalho conta em detalhes o conflito entre os kachigumi, ou “vitoristas” – imigrantes japoneses que não aceitavam a derrota do Japão na guerra, apoiados por oitenta por cento da comunidade japonesa no Brasil – e os makegumi, ou “derrotistas” – imigrantes japoneses apelidados pelos militantes da seita de “corações sujos”, por terem aceitado a derrota do Japão na Segunda Guerra.
 
Cheios de nomes japoneses (que se parecem muito e em certo momento confundem um pouco), o livro narra a série de atentados ocorridos entre os anos 1946 e 1947 e que matou dezenas de japoneses e feriu centenas deles. A investigação sobre a organização secreta japonesa Shindo Renmei – ou Liga do Caminhos dos Súditos, responsável pela “limpeza ideológica” na colônia japonesa, revela amor e ódio daqueles que deixaram a pátria e passaram a viver no Brasil.
 
Fernando Morais investiga as razões que fizeram imigrantes matarem e morrerem em nome do amor e das crenças nacionalistas, o culto ao estilo de vida japonês – o Yamatodamashii. Numa época de grandes tensões no país, mais de 30 mil suspeitos de envolvimento na seita foram presos e 380 pessoas foram condenadas. E para além dos relatos dos ataques, mortes e prisões, o livro revela um Brasil que quase nunca é explorado: as crenças dos imigrantes, as diferenças entre culturas, as represálias sofridas. 

O autor conta magistralmente, e não pela primeira vez, histórias reais e fatos que ficaram escondidos por décadas. Ele consegue explicar com clareza, num texto fluído, as histórias dos militantes, das  vítimas e o panorama da política do Brasil nos anos 1940. E, de forma objetiva,  monta um quadro rico em detalhes e explicações. É o Brasil que vem à tona e surpreende muita gente.

Além do livro, Corações Sujos virou filme em 2011, dirigido pelo cineasta austro-brasileiro Vicente Amorim. Com estreia também no Japão, em 2012, foi baseado no livro-reportagem de Fernando Morais. E mais do que relatos de fatos, é uma das melhores maneiras de aprendizado sobre um momento importantíssimo da história do país. 

Me estendi mais do que deveria, mas foi por uma boa causa. Recomendadíssima leitura, vale a pena conhecer e ler um autor que escreve tão bem e que se dedica muito na apuração das histórias. Um beijo Fernando Morais e começa a escrever outro livro logo que estou esperando.

          Livro: Corações Sujos
          Autor: Fernando Morais
          Editora: Companhia das Letras
          Páginas: 344
          Gênero: Não-ficção/ Livro-reportagem


sexta-feira, 12 de abril de 2013

O Médico e o Monstro


 

Hoje falo sobre três histórias contidas no livro O Médico e o Monstro. A primeira, e mais surpreendente, é a do escritor. A segunda é a de um médico respeitado e com um grande círculo de amizades. A última, e mais obscura, trata-se de um homem sem princípios, rude, arrogante e agressivo, um monstro.

Robert Louis Stevenson, escocês de Edimburgo, é o protagonista da primeira história. Ele viveu uma vida de aventuras, tanto de navio como a bordo de suas obras. Desde sua infância teve os dias contados: uma tuberculose crônica condenava o escritor a poucos anos de vida. Buscando climas que amenizassem suas crises, ele dava lugar ao viajante sem jamais parar de escrever. Nessas idas e vindas da vida, Stevenson, escreveu A Ilha do Tesouro e conquistou sucesso no mundo todo. Ainda em um desses nuances de saúde do escritor, mais precisamente durante um sonho, entre hemorragias e convulsões pulmonares, a novela O Médico e o Monstro foi concebida.

O sucesso que já havia sido conquistado, desta vez foi consolidado. Em 1888, comprou um barco e levou sua família em um cruzeiro para o Pacífico Sul, sua saúde estava muito debilitada. Na Oceania, ilha de Upolu, Stevenson encontrou o clima perfeito para sua saúde e lá ainda viveu por mais alguns anos, vindo a morrer em 1894 e por uma ironia do destino, com hemorragia cerebral. Parece que a morte encontrou neste homem um médico que domou seu próprio monstro e foi capaz de deixá-lo viver o suficiente para deixar uma herança para a eternidade. 

O Médico e o Monstro é uma obra bastante pequena em páginas e enorme em conteúdo. Uma crítica à sociedade inglesa da época, que vivia a hipocrisia do ser humano unicamente bom. Um livro leve e sucinto que foge da imagem de que um clássico tem que ser um calhamaço de 600 páginas. Esse pode tranquilamente ser lido em dois ou três dias. 

A segunda história envolve um médico chamado Dr. Jekyll, conhecido na Londres da época, se tornou respeito por lecionar na universidade e fazer grandes pesquisas, o que na verdade era seu foco principal e, numa dessas, ele se viu num beco, como aqueles de Londres, bem escuro e com um ar sombrio e o pior de tudo: sem saída.

A terceira e mais sombria história é a de Mr. Hyde, um homem sem princípios e sem passado que parece ter alguma relação de amizade (ou de chantagem?) com o médico e começa a ser investigado depois do caso em que, ao trombar com uma menina em uma esquina, pisoteia-a, causando repulsa na vizinhança. 

O livro é narrado em torno de Mr. Utterson, um advogado que se vê na necessidade de ajudar seu amigo, o médico Dr. Jekyll. Ao saber do caso, por uma testemunha, seu amigo Mr. Enfield, em que um homem trombou com uma criança e, ao vê-la caída pelo choque, pisoteou-a com um prazer demoníaco, se viu com uma vontade imensurável de fazer justiça. 

O advogado começa a se inquietar com o ocorrido e com a descrição do homem que foi capaz de cometer a barbárie e o pior, parecia que Dr. Jekyll, seu amigo de anos, protegia o rapaz e suas atitudes. Ninguém sabia definir bem o rapaz, apenas diziam que era mal encarado e suas maneiras causavam repulsa.

A investigação era inevitável, Utterson não podia ver seu amigo vítima de um chantagista mau caráter que poderia difamar o nome de Jekyll e os sinais da preocupação do médico eram visíveis, ele não mais saía de casa.

A história é conhecida por todos. Afinal, estamos falando de um dos maiores clássicos da literatura. Os dramas vividos pelo médico, pelo advogado e por todos à sua volta constroem uma leitura empolgante e um mistério envolvente. Tudo isso, com uma metáfora que é válida até os dias de hoje: “Há um monstro dentro de nós? O que distingue o bem e o mal?”.

          Livro: O Médico e o Monstro
          Autor: R. L. Stevenson
          Editora: Ática
          Páginas: 96
          Gênero: Literatura Internacional/Novela