Um livro doentio e sexy em
níveis astronômicos. Essa afirmação pode parecer contraditória, e deveria ser,
mas J. G. Ballard mostra que não. Doentio e sexy podem andar lado a lado num
mundo fetichista que, apesar de ficcional, é bastante próximo da realidade.
Este livro é de 1973, mas se
mantém atual mesmo depois de 40 anos, principalmente quando revela os problemas
de uma sociedade que vive boa parte dos seus dias dentro de automóveis. A
história é contada em primeira pessoa por um personagem que o autor,
curiosamente, nomeou com seu próprio nome: James Ballard. A saga é narrada após
Ballard se envolver em um acidente que quase levou a sua morte.
O acidente revela um lado
ainda não explorado dos automóveis pelo protagonista, as muitas alternativas
sexuais que os desastres podem proporcionar. Ballard é introduzido por Vaughan a
um mundo fetichista e altamente sexual. Vaughan é um aficionado por acidentes
de carro que passa seus dias fotografando vítimas e vê estes tristes
acontecimentos com um prazer assustador.
Crash se utiliza da simforofilia, fetiche por desastres como
incêndios ou acidentes de carro, para prender o leitor numa trama assustadora,
na qual o personagem passa a viver os desastres automobilísticos como
fundamentação de sua vida, e leva sua mulher junto. Uma das coisas mais
assustadoras é a naturalidade com que as pessoas lidam com o desastres e a
morte. O carro e outras máquinas são vistas, basicamente, como instrumentos
sexuais, como no trecho que Ballard vê todos os aviões do aeroporto como se
quisessem penetrar no ânus de uma aeromoça(!). Mas o foco mesmo são os carros,
eles se tornam base da relação sexo e homem a tal ponto que impossibilitam o
ato sexual fora deles.
Ballard (como autor) descreve tudo exaustivamente, adjetivos e mais
adjetivos durante todo o livro ajudam a dar essa noção demente dos personagens.
Abstrações inimagináveis para nós, meros mortais, sobre sexo, carros e
acidentes são recorrentes. As passagens sobre drogas são enlouquecedoras, as
sobre sexo excitam, outras ainda que tratam de deficiências e morte são
pavorosas, de arrepiar.
Agora que tu já leu sobre
como é o livro, vale tocar novamente num aspecto: este livro é de quatro
décadas atrás, época na qual as pessoas tinham uma visão muito mais
conservadora sobre sexo e mais ainda sobre fetiches extremos como os relatados
na obra. Tudo bem, os EUA viviam uma época de rebeldia pós-Woodstock e uma onda
hippie que jogou fora muito dos preconceitos, mas se mesmo hoje, um livro é
capaz de impactar tanto um leitor (me impactou MUITO), imagine como não deve
ter sido naquela época.
Os capítulos vão te
inserindo gradativamente a um mundo bastante forte, sedutor e, por vezes,
nojento. Por mais que não se goste, que se tenha aversão ou nojo de coisas
assim tão fortes, o livro é uma ótima leitura para fugir do estilo padrão de
histórias com poucas variações ou mesmo das épicas que circundam o senso comum.
Esta foge de tudo que se pode imaginar. Ela é forte e intensa, mas agride o leitor, faz repensar sobre a capacidade
de loucura que pode se abater sobre as pessoas, mesmo uma pessoa comum como o
personagem principal, Ballard.
É um livro caro, cerca de
R$40,00, principalmente se levarmos em consideração o seu tamanho. Eu comprei
na promoção da Companhia das Letras pela metade do preço, mas mesmo o preço
cheio vale a pena. E ele vale por contar uma história bastante diferente e
muito chocante. Se tiver a oportunidade, leia.
Se estiver na dúvida se compra ou não, compre.
Este é um livro que vale o
investimento, mesmo que tu venha a odiar a história, só o cenário
único proposto pela obra já é válido para adquirir conhecimento sobre coisas
absurdas e diferentes. Caso, mesmo depois de saber tudo isso, você opte por não
ler, existe um filme de 1996 que dá a oportunidade de você conhecer a história de
Crash. Apesar de nada superar o prazer de descobrir página a página, cada
detalhe de uma história.
Livro: Crash
Autor: J. G. Ballard
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 240
Gênero: Romance






