quarta-feira, 17 de julho de 2013

Crash


Um livro doentio e sexy em níveis astronômicos. Essa afirmação pode parecer contraditória, e deveria ser, mas J. G. Ballard mostra que não. Doentio e sexy podem andar lado a lado num mundo fetichista que, apesar de ficcional, é bastante próximo da realidade.

Este livro é de 1973, mas se mantém atual mesmo depois de 40 anos, principalmente quando revela os problemas de uma sociedade que vive boa parte dos seus dias dentro de automóveis. A história é contada em primeira pessoa por um personagem que o autor, curiosamente, nomeou com seu próprio nome: James Ballard. A saga é narrada após Ballard se envolver em um acidente que quase levou a sua morte.

O acidente revela um lado ainda não explorado dos automóveis pelo protagonista, as muitas alternativas sexuais que os desastres podem proporcionar. Ballard é introduzido por Vaughan a um mundo fetichista e altamente sexual. Vaughan é um aficionado por acidentes de carro que passa seus dias fotografando vítimas e vê estes tristes acontecimentos com um prazer assustador.

Crash se utiliza da simforofilia, fetiche por desastres como incêndios ou acidentes de carro, para prender o leitor numa trama assustadora, na qual o personagem passa a viver os desastres automobilísticos como fundamentação de sua vida, e leva sua mulher junto. Uma das coisas mais assustadoras é a naturalidade com que as pessoas lidam com o desastres e a morte. O carro e outras máquinas são vistas, basicamente, como instrumentos sexuais, como no trecho que Ballard vê todos os aviões do aeroporto como se quisessem penetrar no ânus de uma aeromoça(!). Mas o foco mesmo são os carros, eles se tornam base da relação sexo e homem a tal ponto que impossibilitam o ato sexual fora deles.

Ballard (como autor) descreve tudo exaustivamente, adjetivos e mais adjetivos durante todo o livro ajudam a dar essa noção demente dos personagens. Abstrações inimagináveis para nós, meros mortais, sobre sexo, carros e acidentes são recorrentes. As passagens sobre drogas são enlouquecedoras, as sobre sexo excitam, outras ainda que tratam de deficiências e morte são pavorosas, de arrepiar.

Agora que tu já leu sobre como é o livro, vale tocar novamente num aspecto: este livro é de quatro décadas atrás, época na qual as pessoas tinham uma visão muito mais conservadora sobre sexo e mais ainda sobre fetiches extremos como os relatados na obra. Tudo bem, os EUA viviam uma época de rebeldia pós-Woodstock e uma onda hippie que jogou fora muito dos preconceitos, mas se mesmo hoje, um livro é capaz de impactar tanto um leitor (me impactou MUITO), imagine como não deve ter sido naquela época.

Os capítulos vão te inserindo gradativamente a um mundo bastante forte, sedutor e, por vezes, nojento. Por mais que não se goste, que se tenha aversão ou nojo de coisas assim tão fortes, o livro é uma ótima leitura para fugir do estilo padrão de histórias com poucas variações ou mesmo das épicas que circundam o senso comum. Esta foge de tudo que se pode imaginar. Ela é forte e intensa, mas agride o leitor, faz repensar sobre a capacidade de loucura que pode se abater sobre as pessoas, mesmo uma pessoa comum como o personagem principal, Ballard.

É um livro caro, cerca de R$40,00, principalmente se levarmos em consideração o seu tamanho. Eu comprei na promoção da Companhia das Letras pela metade do preço, mas mesmo o preço cheio vale a pena. E ele vale por contar uma história bastante diferente e muito chocante. Se tiver a oportunidade, leia.  Se estiver na dúvida se compra ou não, compre.

Este é um livro que vale o investimento, mesmo que tu venha a odiar a história, só o cenário único proposto pela obra já é válido para adquirir conhecimento sobre coisas absurdas e diferentes. Caso, mesmo depois de saber tudo isso, você opte por não ler, existe um filme de 1996 que dá a oportunidade de você conhecer a história de Crash. Apesar de nada superar o prazer de descobrir página a página, cada detalhe de uma história.

            Livro: Crash
            Autor: J. G. Ballard
            Editora: Companhia das Letras
            Páginas: 240
            Gênero: Romance

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Corações Sujos


Hoje terminei de ler Corações Sujos, livro do jornalista e escritor mineiro (e muito querido) Fernando Morais. Este é o sexto livro que leio dele e serviu para confirmar minha opinião: que escritor! Depois de ter lido A Ilha (1975), Olga (1985), Chatô, o rei do Brasil (1994), Na Toca dos Leões (2004) e Os últimos soldados da guerra fria (2011), descobri este livro quando comecei a pensar num assunto para o meu trabalho de conclusão de curso (estudo jornalismo, para quem não sabe). Já tinha decidido pesquisar sobre jornalismo literário, que é uma verdadeira paixão, e sobre o Fernando Morais, que é um grande exemplo para mim.

Corações Sujos foi lançado nos anos 2000 pela Companhia das Letras e ganhou, em 2001, o prêmio Jabuti de livro de não-ficção. Um best-seller que conta a história de um Brasil pouco conhecido: a guerra na colônia japonesa após o término da Segunda Guerra Mundial.

O livro foi resultado de mais de cinco anos de pesquisa, viagens ao interior de São Paulo e Paraná e centenas de entrevistas. A reportagem que Fernando Morais escreveu depois de intensos anos de trabalho conta em detalhes o conflito entre os kachigumi, ou “vitoristas” – imigrantes japoneses que não aceitavam a derrota do Japão na guerra, apoiados por oitenta por cento da comunidade japonesa no Brasil – e os makegumi, ou “derrotistas” – imigrantes japoneses apelidados pelos militantes da seita de “corações sujos”, por terem aceitado a derrota do Japão na Segunda Guerra.
 
Cheios de nomes japoneses (que se parecem muito e em certo momento confundem um pouco), o livro narra a série de atentados ocorridos entre os anos 1946 e 1947 e que matou dezenas de japoneses e feriu centenas deles. A investigação sobre a organização secreta japonesa Shindo Renmei – ou Liga do Caminhos dos Súditos, responsável pela “limpeza ideológica” na colônia japonesa, revela amor e ódio daqueles que deixaram a pátria e passaram a viver no Brasil.
 
Fernando Morais investiga as razões que fizeram imigrantes matarem e morrerem em nome do amor e das crenças nacionalistas, o culto ao estilo de vida japonês – o Yamatodamashii. Numa época de grandes tensões no país, mais de 30 mil suspeitos de envolvimento na seita foram presos e 380 pessoas foram condenadas. E para além dos relatos dos ataques, mortes e prisões, o livro revela um Brasil que quase nunca é explorado: as crenças dos imigrantes, as diferenças entre culturas, as represálias sofridas. 

O autor conta magistralmente, e não pela primeira vez, histórias reais e fatos que ficaram escondidos por décadas. Ele consegue explicar com clareza, num texto fluído, as histórias dos militantes, das  vítimas e o panorama da política do Brasil nos anos 1940. E, de forma objetiva,  monta um quadro rico em detalhes e explicações. É o Brasil que vem à tona e surpreende muita gente.

Além do livro, Corações Sujos virou filme em 2011, dirigido pelo cineasta austro-brasileiro Vicente Amorim. Com estreia também no Japão, em 2012, foi baseado no livro-reportagem de Fernando Morais. E mais do que relatos de fatos, é uma das melhores maneiras de aprendizado sobre um momento importantíssimo da história do país. 

Me estendi mais do que deveria, mas foi por uma boa causa. Recomendadíssima leitura, vale a pena conhecer e ler um autor que escreve tão bem e que se dedica muito na apuração das histórias. Um beijo Fernando Morais e começa a escrever outro livro logo que estou esperando.

          Livro: Corações Sujos
          Autor: Fernando Morais
          Editora: Companhia das Letras
          Páginas: 344
          Gênero: Não-ficção/ Livro-reportagem


sexta-feira, 12 de abril de 2013

O Médico e o Monstro


 

Hoje falo sobre três histórias contidas no livro O Médico e o Monstro. A primeira, e mais surpreendente, é a do escritor. A segunda é a de um médico respeitado e com um grande círculo de amizades. A última, e mais obscura, trata-se de um homem sem princípios, rude, arrogante e agressivo, um monstro.

Robert Louis Stevenson, escocês de Edimburgo, é o protagonista da primeira história. Ele viveu uma vida de aventuras, tanto de navio como a bordo de suas obras. Desde sua infância teve os dias contados: uma tuberculose crônica condenava o escritor a poucos anos de vida. Buscando climas que amenizassem suas crises, ele dava lugar ao viajante sem jamais parar de escrever. Nessas idas e vindas da vida, Stevenson, escreveu A Ilha do Tesouro e conquistou sucesso no mundo todo. Ainda em um desses nuances de saúde do escritor, mais precisamente durante um sonho, entre hemorragias e convulsões pulmonares, a novela O Médico e o Monstro foi concebida.

O sucesso que já havia sido conquistado, desta vez foi consolidado. Em 1888, comprou um barco e levou sua família em um cruzeiro para o Pacífico Sul, sua saúde estava muito debilitada. Na Oceania, ilha de Upolu, Stevenson encontrou o clima perfeito para sua saúde e lá ainda viveu por mais alguns anos, vindo a morrer em 1894 e por uma ironia do destino, com hemorragia cerebral. Parece que a morte encontrou neste homem um médico que domou seu próprio monstro e foi capaz de deixá-lo viver o suficiente para deixar uma herança para a eternidade. 

O Médico e o Monstro é uma obra bastante pequena em páginas e enorme em conteúdo. Uma crítica à sociedade inglesa da época, que vivia a hipocrisia do ser humano unicamente bom. Um livro leve e sucinto que foge da imagem de que um clássico tem que ser um calhamaço de 600 páginas. Esse pode tranquilamente ser lido em dois ou três dias. 

A segunda história envolve um médico chamado Dr. Jekyll, conhecido na Londres da época, se tornou respeito por lecionar na universidade e fazer grandes pesquisas, o que na verdade era seu foco principal e, numa dessas, ele se viu num beco, como aqueles de Londres, bem escuro e com um ar sombrio e o pior de tudo: sem saída.

A terceira e mais sombria história é a de Mr. Hyde, um homem sem princípios e sem passado que parece ter alguma relação de amizade (ou de chantagem?) com o médico e começa a ser investigado depois do caso em que, ao trombar com uma menina em uma esquina, pisoteia-a, causando repulsa na vizinhança. 

O livro é narrado em torno de Mr. Utterson, um advogado que se vê na necessidade de ajudar seu amigo, o médico Dr. Jekyll. Ao saber do caso, por uma testemunha, seu amigo Mr. Enfield, em que um homem trombou com uma criança e, ao vê-la caída pelo choque, pisoteou-a com um prazer demoníaco, se viu com uma vontade imensurável de fazer justiça. 

O advogado começa a se inquietar com o ocorrido e com a descrição do homem que foi capaz de cometer a barbárie e o pior, parecia que Dr. Jekyll, seu amigo de anos, protegia o rapaz e suas atitudes. Ninguém sabia definir bem o rapaz, apenas diziam que era mal encarado e suas maneiras causavam repulsa.

A investigação era inevitável, Utterson não podia ver seu amigo vítima de um chantagista mau caráter que poderia difamar o nome de Jekyll e os sinais da preocupação do médico eram visíveis, ele não mais saía de casa.

A história é conhecida por todos. Afinal, estamos falando de um dos maiores clássicos da literatura. Os dramas vividos pelo médico, pelo advogado e por todos à sua volta constroem uma leitura empolgante e um mistério envolvente. Tudo isso, com uma metáfora que é válida até os dias de hoje: “Há um monstro dentro de nós? O que distingue o bem e o mal?”.

          Livro: O Médico e o Monstro
          Autor: R. L. Stevenson
          Editora: Ática
          Páginas: 96
          Gênero: Literatura Internacional/Novela

segunda-feira, 25 de março de 2013

Barba Ensopada de Sangue


O surgimento do jovem escritor Daniel Galera na cena literária é parte da história de um grupo de escritores de Porto Alegre que começou a publicar revistas virtuais na rede. Fundou e participou do projeto editorial Livros do Mal, em colaboração com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, onde publicou seus primeiros livros Dentes guardados (2001) e Até o dia em que o cão morreu (2003), romance que foi adaptado para o cinema em 2007, com o título Cão sem dono.

O seu mais novo romance, Barba Ensopada de Sangue, não é um livro cheio de aventuras e reviravoltas (estilo Game of Thrones, onde nada pára, se vocês me entendem). Mas é surpreendente, forte, cativante. Daniel Galera, que é gaúcho, mas nasceu em São Paulo (é porto-alegrense de coração, isso que interessa), conta a história de um professor de natação que busca refúgio, depois da morte do pai, na praia de Garopada, no litoral de Santa Catarina.

É numa narrativa despretensiosa, tranquila e rica em detalhes que conhecemos a história deste atleta, que busca informações sobre o assassinato e desaparecimento do avô na vila dos pescadores. O cenário do litoral catarinense, tão conhecido pelos gaúchos que um dia já veranearam lá, ajuda na compreensão do lugar, dos pontos que são importantes na localização do personagem, o que facilita nosso imaginar. O protagonista adota Beta, cadela que era do pai, instala-se num apartamento à beira-mar e arruma um emprego na academia da cidade.

O suspense somado aos diálogos introspectivos, acabam tornando os personagens que rodeiam o protagonista muito mais concretos. A mistura de ficção com realidade é feita com tamanha maestria que a impressão é de ler uma biografia. 

O personagem principal ganha empatia por ter uma condição neurológica bem peculiar, que faz com que ele não consiga reconhecer traços faciais das pessoas, nem dele próprio. O autor cria uma realidade convincente, num contexto moderno, contemporâneo – com conflitos existenciais, de identidade, de relacionamentos.

Os demais personagens ganham vida na sutileza dos detalhes, na verossimilhança dos diálogos, na verdade dos sentimentos. E o autor se torna esplêndido na arte de contar sobre conflitos e consequências de atitudes.  E dá, com certeza, uma lição sobre o contato com a natureza e os animais.

Galera consegue manter seu segredo durante a narrativa e não cai na tentação de resolver todos os conflitos, de desatar todos os nós e arrematar as pontas soltas. E assim, sai da banalidade e torna sua obra maravilhosa. E é exatamente nas pontas soltas que o livro surpreende e que a história alcança o clímax.

O romance explora o lado humano, o de estar só consigo mesmo, de como é lidar com isso. E por outro lado, examina muito bem o lado das relações, de amores e ódios. De indiferenças e amizades. É intrigante, quase impossível deixar de lado. Daniel Galera deixa a gente com aquela pontinha de orgulho de ser daqui, e de ter sim, literatura de qualidade.

P.S: A capa emborrachadinha da Companhia das Letras e as opções de cores ganharam meu coração.

          Livro: Barba Ensopada de Sangue
          Autor: Daniel Galera
          Editora: Companhia das Letras
          Páginas: 424
          Gênero: Literatura Nacional/ Romance


segunda-feira, 18 de março de 2013

As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia



Quem nunca ouviu falar d’As Brumas de Avalon? Ao contrário de muitos outros, As Brumas de Avalon é um clássico que faz valer toda a fama que tem. A recriação da Bretanha e da lenda do Rei Artur é espetacular, pelo menos na primeira das quatro partes.

A obra foi escrita por Marion Zimmer Bradley, autora que se tornou famosa também pela série Darkover. A americana, natural de Albany nos Estados Unidos, estudou a fundo toda a história da vida de Artur, inclusive visitando muitos locais da Bretanha, para conseguir envolver magia e fantasia a história do famoso Grande Rei da Bretanha.

Marion utiliza um vocabulário rebuscado, o que é necessário tendo em vista o contexto da época. A leitura é agradável e fluida, poucas vezes a história dá ênfase a partes menos interessantes. O livro não é cansativo, mas segue o padrão da literatura fantástica, com riqueza de informação e de vocabulário.

Com a história se sobrepondo aos detalhes – e nesse ponto As Brumas de Avalon se diferencia de muitos livros fantásticos – constrói-se uma obra de 248 páginas e uma série de quatro livros que não diferem muito uns dos outros quando falamos de tamanho.

Igraine, Morgana e Viviane são as principais personagens nesse primeiro livro da série e provocam nuances da opinião do leitor. Lembrando Martin e As Crônicas de Gelo e Fogo, Marion passa uma imagem de cada personagem para mais tarde, revelar outro viés da história, sendo capaz de destruir uma imagem positiva criada anteriormente.

Em uma terra em que os homens batalhavam e pareciam decidir o rumo do reino, é a visão das mulheres que é passada para o leitor. Mas está longe de ser uma história só de tecer e tricotar, a força da mulher é uma característica marcante, todas elas lutam pelos seus interesses desafiando até mesmo a magia para que a profecia se cumpra.

A religião é outro ponto importante da obra. O Cristianismo, a antiga religião das Sacerdotisas do Lago e outras religiões criadas por Marion, dão o tom de cada sociedade e revelam rituais muito bem explorados pela autora. O que mais chama atenção é a crítica a fé cristã que não é capaz de aceitar outra religião e transmite vingança aos seus fiéis, como no trecho “Como poderia um deus misericordioso ser mais fanático e vingativo do que o menor de seus mortais?”.

A Bretanha antiga, uma Avalon escondida atrás das brumas, duendes e até mesmo seres não humanos e te esperam nessa jornada. O segundo livro da série está na fila e, em breve, aparecerá por aqui também.

           Livro: As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia
           Autor: Marion Zimmer Bradley 
           Editora: Imago 
           Páginas: 248
           Gênero: Fantasia

sexta-feira, 8 de março de 2013

A Sangue Frio


Livro obrigatório para jornalistas e aspirantes à profissão, A Sangue Frio foi publicado em 1966 e conta uma história brutal: o assassinato de uma família na cidade de Holcomb, no interior do Estado do Kansas, Estados Unidos. Originalmente publicado em 4 capítulos, durante o ano de 1965,  na revista americana The New Yorker, o livro é considerado a obra-prima do New Journalism – gênero jornalístico que surgiu na imprensa dos EUA na década de 1960 e que mistura a narrativa jornalística com a literária.

Para escrever o livro, Truman Capote fez uma extensa pesquisa, que durou cerca de cinco anos, isso mesmo, cinco anos de entrevistas, consultas em documentos oficiais, diários, cartas e muita observação. Tudo isso resultou em mais de oito mil páginas de anotações, além das entrevistas com os assassinos Richard Hickock e Perry Smith.

Essa forma de fazer jornalismo, embora possa ser lido como ficção, não é ficção. Deveria, teoricamente, ser tão verídico como uma reportagem, mas consente que o escritor seja mais imaginativo e até mesmo se intrometa no texto. O que Capote faz bastante. Tudo começou quando, depois de ler uma pequena nota sobre os assassinatos no The New York Times, Capote resolveu que aquilo daria uma boa história. E lá se foi para a pequena cidade, chegando um mês depois, com a população ainda em choque.

Truman Capote consagrou-se com a obra, que virou filme em 2005 e ganhou até um Oscar. Além dessa versão mais recente, outras já tinham sido feitas. No livro, ele conta desde a idéia inicial do crime, o passado dos assassinos e suas execuções. 

O livro começa com a história das vítimas em seu último dia de vida: 15 de novembro de 1959. Herb Clutter, de 48 anos, respeitado fazendeiro. Bonnie Clutter, sua esposa, que sofria de "problemas psicológicos". Os dois filhos adolescentes, Kenyon e Nancy.

O crime abalou a pacata cidade de apenas 270 habitantes e fez com que ela ficasse muito famosa, cheia de jornalistas, autoridades, polícia e claro, curiosos. A polícia passou a procurar incansavelmente os criminosos, que haviam levado da casa apenas um rádio, um par de binóculos e 40 dólares.

Capote descreve minuciosamente a reação dos moradores da cidade, a investigação policial e os passos dos criminosos durante a fuga, assim como a história pregressa dos assassinos. Poucos meses depois do crime, Richard Hickock e Perry Smith são presos. Condenados à morte, somente em 14 de abril de 1965 eles são executados.

Truman Capote prende o leitor de uma forma feroz. A família Clutter e até mesmo Hickcok e Smith parecem tão próximos, que é como se os conhecêssemos de longa data. Mas é depois de umas 100 e tantas páginas que ele começa a contar o que se passou naquele dia. O ritmo é tão penetrante que eu fiquei neurótica: cheguei a sonhar que estava “investigando” os assassinatos, tão grande era minha curiosidade.

O crime é descrito tão minuciosamente que a impressão é de que o próprio Capote estava na casa naquele momento. E, também, no carro durante a fuga. Na verdade, é como se ele estivesse sempre em todos os lugares, observando tudo. Houve um rumor, que é contado no epílogo do livro, de que ele teria se envolvido amorosamente com Perry Smith, e que por isso não tinha conseguido assistir à sua execução. No desenrolar das investigações e do julgamento, duas versões são contadas por Rick e por Smith. Um dos assassinos ganhou minha simpatia e eu escolhi a versão dele para acreditar. Mas será que o rumor era verdadeiro? Capote nunca confirmou.

A Sangue Frio é impactante, de uma excelente escrita, numa narrativa que leva o leitor para dentro da história. É de arrepiar. E é, de fato, tão real que choca, incomoda, não nos deixa parar de pensar no crime, nas motivações dos assassinos.

É um livro que mexe com as emoções, com a realidade, com nossa capacidade de lidar com a crueldade, frieza e loucura humana. Um livro que ninguém pode deixar de ler.

         Livro: A Sangue Frio
         Autor: Truman Capote
         Editora: Companhia das Letras
         Páginas: 440
         Gênero: Não-ficção/ Literatura estrangeira/ Jornalismo

segunda-feira, 4 de março de 2013

Mengele: O Último Nazista



Ao som de uma valsa vienense, de frente para um belo e galante rapaz, transpassava o último cheiro de esperança da vida de muitos judeus. Era assim que as pessoas reagiam ao ver Josef Mengele. O efeito era ainda maior naquelas jovens mulheres, esperançosas de que uma bela história ainda esperava-as naquela vida que havia se tornado tão torturante no momento em que foram capturadas.

A história escrita por Gerald Astor narra a vida e a morte de Josef Mengele, além de um panorama geral do nazismo. Desde a primeira armada nazistas, a SA ou Os Camisas Pardas que eram abertamente homossexuais, até a tomada do poder, o autor guia o leitor em uma história triste e visceral.

Um estudante de medicina seduzido, como muitos outros, pelo discurso nazista acabou se alistando em um dos grupos que apoiava o regime. Mengele começou sua carreira militar nos Capacetes de Aço, onde passou 3 anos, para então partir para a AS, uma classe já decadente que acabou causando certo desconforto tempos depois quando ele se alistou na SS, grupo que o levou ao seu patamar máximo.

A leitura é bastante interessante e o volume de história contido no começo da obra traz curiosidade. Depois do panorama inicial sobre o nazismo, Gerald foca em Mengele e em sua história em Auschwitz detalhando suas barbáries e sua “gentileza”. E, então, não tem como parar de ler durante dezenas de páginas.

Com o poder nas mãos, Mengele tinha todas as ferramentas para botar em prática toda sua maldade doentia. O tal rapaz ganhou vários apelidos: Anjo da Morte, Anjo Exterminador, Doutor Morte e, até mesmo, Açougueiro. Sua beleza e gentileza chegavam a provocar suspiros de moças que sabiam de muitas das barbáries por ele cometidas.

Mengele era um dos muitos selecionadores, mas parecia ser o único que sentia prazer em separar os que se tornariam escravos dos que morreriam nas câmaras de gás, ou ainda aqueles que usaria em seus experimentos “científicos”.

O autor nos revela muitas das experiências de Mengele, por meio de relatos de médicos judeus que eram obrigados a trabalhar para ele. Cada uma mais absurda que a outra, a busca da eugenia, fazia Mengele testar anomalias nos humanos. Fixações próprias, como a que ele tinha com gêmeos e prisioneiros em geral eram utilizados em experimentos macabros e mortais. Torturas lentas, como injeção de algum material nos corpos, ou mesmo torturas rápidas que faziam os prisioneiros se mutilarem de pavor.

Felizmente o nazismo foi derrotado. Porém, Mengele e muitos outros nazistas conseguiram fugir, não somente por méritos pessoais, mas muito pelo descaso, ou pela vontade, por parte de pessoas importantes, de que fugissem.

Gerald começa a contar como foram os passos de Mengele na América do Sul. O livro adquire um tom mais especulativo, utilizando sempre a história “mais confiável”. Essa parte do livro perde a intensidade de história e se torna maçante. À exceção das últimas, a centena final de páginas não é agradável.

Foi a Argentina que usou seu lema “União e Liberdade” para se unir aos malfeitores e dar a liberdade para assassinos em massa. Perón aguardava fascistas e nazistas de braços abertos. E lá, começou a vida de Mengele na América do Sul. Ele ainda passaria por Uruguai e Paraguai antes de chegar no Brasil. Aqui, na América do Sul, Mengele construiu uma nova vida. Sem perder seu autoritarismo e sem sentir qualquer culpa, sempre escondendo seu passado e ajudado com o descaso das autoridades, ele seguiu até morrer, aos 67 anos de idade.

A má vontade de quem deveria procurar pelo Anjo da Morte agonia o leitor por muitos capítulos. E a agonia fica ainda maior por saber que Mengele, O Último Nazista, morreu afogado por estar velho e já bastante adoecido, num Brasil que fez jus a todas as críticas que a cultura latina recebeu e também foi conivente com criminosos de guerra como Josef Mengele.

Gerald Astor escreveu uma obra dura, que por vezes chega a nos dar ódio, mas que deve receber a atenção de todos. Não necessariamente pelo livro em si, mas a tudo ao que se refere e tudo o que aconteceu naqueles anos obscuros do holocausto. Para que a história não seja esquecida e, ainda mais importante, para que essa infeliz história jamais seja revivida. 

         Livro: Mengele: O Último Nazista
           Autor: Gerald Astor
           Editora: Planeta do Brasil
           Páginas: 296
           Gênero: Biografia

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Terra Sonâmbula


Descobri Mia Couto na última feira do livro de Porto Alegre. O autor moçambicano estava super badalado por aqui e não se falava em outra coisa. Escolhi aleatoriamente Terra Sonâmbula para conhecê-lo. Descobri que esse foi o primeiro romance dele, publicado em 1992 (sua obra inclui poesia, contos e crônicas). Foi considerado, por um júri especial da Feira do Livro de Zimbábue, um dos doze melhores livros africanos do século XX. Aqui no Brasil foi reeditado pela Companhia das Letras. A história de Terra Sonâmbula já foi produzida no cinema, ainda não assisti, mas fica a dica para quem tem preguicinha de ler, mas quer conhecer a história

O livro é escrito em uma prosa poética e romântica, bem diferente do que estamos acostumados a ler. Lembra bastante o modo de Guimarães Rosa. Mia Couto se utiliza de um realismo mágico, de uma arte narrativa que envolve o leitor numa fábula cheia de fantasias míticas. Em meados dos anos 80, quando estreou nos contos, fez o mesmo com uma nova maneira de falar português – ou “faliventar”, como diz o autor. E essa foi uma das dificuldades do livro – as palavras inventadas, palavras novas ou africanas - que trancam um pouco a leitura, mas ao mesmo tempo criam um cenário diferente e uma leitura mais densa, com vocabulário rico e diversificado.

A guerra civil que devastou Moçambique entre 1976 e 1992, no período pós- independência, é cenário para a história do menino Muidinga e do velho Tuahir, que fazem de um ônibus incendiado – o machimbombo –, sua casa. É na convivência de Muidinga, que foi encontrado sem memória pelo velho errante, que nasce uma amizade paternal baseada em conflitos, perdas, falta de passado e de esperança.

Perto do ônibus eles encontram o corpo de mais um refugiado, e com ele, uma mala. Dentro desta mala está um caderno que levará os dois personagens a viver aventuras sem destino. Numa terra que nunca dorme, nunca descansa, uma terra sonâmbula, os capítulos da história de Muidinga e Tuahir vão se intercalando com a história contada nos doze capítulos do diário de Kindzur. E o menino, na sua inocência de criança, acredita que nas folhas daquele caderno está o mapa para encontrar sua família.

Muidinga não lembra nada sobre seu passado. Tudo que sabe é o que lhe conta seu companheiro de jornada. O velho, que tinha o serviço de enterrar corpos em um campo de refugiados, salvou o menino de ser enterrado vivo e o adotou para si, ensinando-o novamente a andar e falar. Os dois, então, vagueiam pela estrada em meio às desordens da guerra, aos assaltos dos bandos armados, aos desmandos das autoridades. Tudo é perigo naqueles lugares. Durante o dia, saem para explorar a região. Durante a noite, o menino lê as histórias para o velho.

Histórias antigas e míticas são misturadas com a modernidade e algumas passagens são hilárias, enquanto outras provocam uma sensação de aperto e de angústia no leitor. A devastação, miséria e crenças vão construindo uma história sobre a esperança e o sonho, que nunca morre.

“Se dizia daquela terra que era sonâmbula. Porque enquanto os homens dormiam, a terra se movia espaços e tempos afora. Quando despertavam, os habitantes olhavam o novo rosto da paisagem e sabiam que, naquela noite, eles tinham sido visitados pela fantasia do sonho" - Crença dos habitante de Matimati

Terra Sonâmbula foi uma experiência diferente das quais eu estava acostumada. Demorei para ler e precisei de muita concentração para chegar ao final. Mas é uma leitura que vale a pena, que fala de sonhos, de esperanças, de fantasias. Mostra que a prosa e a poesia andam juntas e que revelam uma realidade que nem sequer imaginávamos.

Um trecho, dos mais bonitos:

- É o que, mãe?
- É que estou grávida maistravez.
A velha devaneava, sonhatriz. Com aquela idade como poderia ela se duplicar? A voz dela, porém, trazia certezas capazes de me confundir.
- Estou grávida, filho. Não é de agora, é já de muito tempo.
- Muito tempo, quanto?
- São anos que guardo essa criança. Nem quero ela nascer nesse tempo. Fica assim dentro de mim, me companha o coração.

        Livro: Terra Sonâmbula
        Autor: Mia Couto
        Editora: Companhia das Letras
        Páginas: 206
        Gênero: Ficção histórica


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Na Toca dos Leões

Fernando Morais e sua obra Na toca dos leões
Fernando Morais é mineiro, nascido em Mariana no ano de 1946. Começou a carreira de jornalista em 1961 e trabalhou em grandes veículos de comunicação brasileiros. Recebeu três vezes o prêmio Esso e quatro vezes o prêmio Abril de jornalismo. Atuou também na política, mas o que importa para nós é sua veia literária. Um dos maiores escritores de não-ficção do Brasil, ganhou o prêmio Jabuti com o livro Corações Sujos (2000), é o autor de grandes obras como Olga e Os Últimos Soldados da Guerra Fria, além, é claro, do livro que analisamos aqui.

Dessa vez, o autor entrou num mundo cheio de histórias mal contadas ou, às vezes, bem contadas até demais. Esmiuçando a vida de Washington Olivetto e de vários outros profissionais que trabalharam com ele, Fernando Morais traz ao leitor o mundo da publicidade com todos os confetes que ele carrega. E ainda mais, mostra que muitas intrigas e inimizades vão sendo construídas à sombra do glamour da profissão.

A história se baseia em como foi criada a agência de publicidade mais premiada da história deste país e uma das maiores do mundo, a W/Brasil. Obviamente, se situa muito mais à volta do W mais famoso do país, sendo considerada até mesmo uma biografia de Olivetto. Mas a obra também revela histórias de outros grandes profissionais da propaganda como Javier Llussá e Gabriel Zellmeister que viriam a formar o “Brasil” no nome da agência em sociedade com Olivetto. Curiosamente ambos são espanhóis.

Brigas entre grandes nomes da propaganda, disputa pelos créditos de peças e campanhas, falta de modéstia, encrencas com clientes e aliciamento de marcas são algumas das intrigas relatadas no livro, mas não são todas. As sombras do glamour trazem muitas histórias e ainda mais versões destas. 


A propaganda pode ter seu lado nem tão belo, mas sempre o lado poético chama mais atenção, e foi isso que criminosos viram em Washington Olivetto. O livro descreve o sequestro, ocorrido em meados de 2004, com uma intensidade que poucas vezes um livro me proporcionou. Ao narrar a epopeia de Olivetto, Fernando Morais faz do leitor seu prisioneiro.

Para quem estuda publicidade, Na toca dos leões traz inspiração e mostra um pouco do que o futuro pode lhe aguardar. Para quem não vive esse mundo, o livro retira a máscara tão bela que a propaganda passa a todos que a consomem e mostra um lado nem tão sedutor. 

Na toca dos leões é um ótimo livro e é recomendado para quem gosta ou não de publicidade. Afinal, quando a propaganda é boa, todo mundo gosta.

             Livro: Na toca dos leões
             Autor: Fernando Morais
             Editora: Planeta
             Páginas: 495
             Gênero: Não-ficção

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A Sombra do Vento


“Um livro é um espelho e só podemos encontrar nele o que carregamos dentro de nós”. Essa é uma das frases mais marcantes do fenômeno editorial que consagrou o espanhol Carlos Ruiz Zafón como uma das maiores revelações literárias em 2001. A obra é uma raridade por ter sido acolhida com enorme entusiasmo pelo público e pela crítica ao mesmo tempo. A Sombra do Vento ultrapassou a marca de 6.5 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, com tradução para onze idiomas. 

O romance ambientando na Barcelona da metade do século XX combina gêneros como romance, aventura, drama e um pouco do gótico de Edgar Allan Poe. Uma obra sedutora que mistura prosa, ora poética, ora irônica, e que se tornou um verdadeiro triunfo da arte de contar histórias em meio à profusão de títulos lançados a cada ano no mercado editorial.
     
A narrativa começa numa madrugada de 1945, quando Daniel Sempere, um menino de 11 anos, é levado pelo pai, dono de um famoso sebo da cidade, a um misterioso lugar no centro histórico de Barcelona: O Cemitério dos Livros Esquecidos. O lugar, pouco conhecido pelos moradores, é uma biblioteca secreta e cheia de labirintos que funciona como depósito de obras abandonas, à espera de alguém que as descubra. É lá que Daniel encontra um exemplar de A Sombra do Vento, livro que mudará o rumo de sua vida e o levará para um caminho de aventuras repleto de segredos e intrigas na alma da cidade. A busca pelo autor do livro que o fascina transformará Daniel em homem ao iniciá-lo no mundo do amor, do sexo e da literatura.
    
É a procura de Daniel que marca sua transformação de menino em homem e que desperta no leitor um fascínio renovado pelos livros. O desejo é abrir as portas do Cemitério dos Livros Esquecidos e descobrir os infindáveis corredores repletos de obras que também poderiam mudar nossas vidas. No cenário grandioso de Barcelona, com sua atmosfera espectral de largas avenidas e casarões abandonados é que conhecemos os personagens coadjuvantes que acompanharão Daniel em suas investigações.
     
Os personagens secundários são muito bem construídos pelo autor ao longo da narrativa. São descritos com uma riqueza de detalhes impressionante, assim como Barcelona, e esse conjunto cria uma reflexão sobre o poder da cultura, da política, do cotidiano e da tragédia do esquecimento. Zafón é brilhante na mistura entre lugares reais e fictícios da cidade e logo eles se tornam queridos e apreciados pelo leitor.
     
O romance de Carlos Ruiz Zafón é uma obra comovente, sedutora e extremamente sensível, que prende a atenção do leitor com uma história de amor e sentimentos. É o primeiro da trilogia seguida por O jogo do anjo e O prisioneiro do céu (que ainda não li). Além de ser uma grandiosa homenagem ao poder dos livros, também é uma alegoria de amizade que muitos leitores mantêm com as bibliotecas e as obras em si. O livro de Zafón foi escrito para ficar entre os nossos favoritos.

             Livro: A Sombra do Vento
             Autor: Carlos Ruiz Zafón
             Editora: Suma de letras
             Páginas: 400
             Gênero: Literatura estrangeira/ Romance

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Morte Súbita

 
A estreia de J.K Rowling na literatura para adultos, com Morte Súbita, foi sucesso de vendas no Reino Unido em 2012 e lançado no Brasil em dezembro do mesmo ano. The casual vacancy, no original em inglês, deverá ser transformado em série da BBC em 2014.  A autora britânica é uma das minhas favoritas (sou fã de Harry Potter, é claro) e o livro, que foi o mais esperado do ano, trouxe enormes expectativas. Foi minha primeira leitura de 2013.  

O romance é sobre moralidade e mortalidade, assim como Harry Potter, só que contemporâneo. É um drama ao estilo do século XIX, com a tentativa de fazer uma versão com temais atuais. As questões sociais, como drogas, marginalidade, religião e desejos adolescentes, são relevantes em qualquer lugar. Os conflitos conjugais e familiares são o foco principal da obra, que vai revelando uma trama cheia de intrigas, ambivalência e segredos.

A história começa com a morte inesperada de Barry Fairbrother, um vereador local de 44 anos. É a partir de sua morte que a cidadezinha imaginária de Pagford fica em estado de choque. O cargo deixado vago torna-se um ponto de disputa e inflexão entre os moradores, que começam a se mobilizar para encontrar um substituto favorável às causas de cada um.

Morte Súbita é uma tragédia cômica, repleta de humor negro, que toca em temas universais. Retrata ironicamente a família média burguesa, fazendo uma crítica sobre as desigualdades e preconceitos da sociedade. Entretanto, apesar das diversas personalidades encontradas ao longo da narrativa, a história dá a impressão de ficar sempre no mesmo lugar. É somente no finalzinho que alguma coisa, de fato, acontece.

Confesso que fiquei um pouco desapontada com a história. O que encontrei foram personagens extremamente caricatos, com histórias entrelaçadas, mas que não foram aprofundados. Na verdade, isso me incomodou bastante. Fechei o livro com a impressão de que eu não conheci nenhum deles. Sabe aqueles livros que passam e não te marcam em nada? Pois é. O livro foi sucesso de vendas em outros países, mas, e se não fosse da J.K, venderia tanto? Não sei.

            Livro: Morte Súbita
            Autora: J.K Rowling
            Editora: Nova Fronteira
            Páginas: 504
            Gênero: Literatura estrangeira/ Ficção contemporânea

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O Poderoso Chefão


consigliere informando a Don Corleone da criação d'O Marca Página
Este é o meu primeiro texto. E o primeiro texto a gente nunca esquece. Como eu acho que deveria começar em grande estilo, nada melhor que a grande história de Don Vito Corleone. Comecei a ler o livro por ter me esquecido de outro livro - A menina que brincava com fogo, do Stieg Larsson - na casa da Paola. Sorte a minha. Também pela namorada, mas me refiro aqui ao padrinho Corleone.

Um capítulo de mais de 60 páginas dá um susto no leitor, logo na primeira investida, mas os capítulos conseguintes são, na grande maioria, de pouquíssimas páginas, de forma que, com o ritmo alucinante que a obra cria, quando um de vinte páginas aparece, acaba sendo devorado como se tivesse apenas duas.

O livro é um pouco grande, mas as 468 páginas, bem recheadas e com letras miúdas, têm uma intensidade de leitura que tornam essa obra gigante e deliciosa. Corleone, ao olhar um apadrinhado e analisá-lo minuciosamente, parece o épico detetive inglês Sherlock Holmes (do qual sou um grande fã). Diria que Don Corleone é a definição – com o perdão do trocadilho – literária de “Badass”. O que mais impressiona na obra é a naturalidade com que as coisas funcionam na máfia. Tudo são negócios. Mesmo a morte de um ente querido pode ser tratada como uma mera manobra de interesses. E a morte é encarada como comum. Esses dois pontos – os negócios e a morte – se encontram na fala de um personagem que a certa altura diz “Diga a Mike que isso era apenas negócio, sempre gostei dele”. 

A história é recheada de ação e dá uma noção diferente de justiça ao não tratar mafiosos como bandidos, mas sim como governantes do seu próprio mundo, homens fortes e incapazes de aceitar as leis impostas pelo país. É tão cativante ler a vida de um homem que, do zero, se tornou um dos homens mais respeitados e poderosos dos EUA, que a máfia chega a se tornar poética. A imagem do mafioso que anda armado e xinga todo mundo enquanto se droga é jogada no lixo pela classe e educação de um homem que nunca levanta o tom de voz e trata todos como se fosse um amigo de infância.

Mario Puzo cria muito mais do que grandes personagens, ele cria respeito e faz o leitor notar que mesmo o mais insignificante ser pode ser útil. Se até mesmo um homem do poder de Vito Corleone é capaz – e sagaz – de tratar todos com educação. Quem somos nós para destratar qualquer pessoa?

Bom, esse é o meu argumento e, assim como o Padrinho, quero ouvir os seus comentários a respeito da nossa proposta.  

Livro: O Poderoso Chefão
Autor: Mario Puzo
Editora: Record
ginas: 468
Gênero: Literatura estrangeira/ Ficção policial